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Testes clínicos fase 1: quando a esperança pode matar

Em 2009, defendi tese de doutorado na UFRJ sustentando que “regimes de verdade” (característicos da ciência) associados a “regimes de esperança” (característicos do senso comum), quando veiculados na mídia, criavam uma retórica potente, inabalável, que, na melhor das hipóteses alavancava grandemente a provisão de verbas para pesquisa (em muitos casos de resultado notoriamente duvidoso) e, na pior, matava pacientes que, na prática, serviriam como ‘cobaias humanas’ de procedimentos duvidosos e dos quais tinham pouca informação. 

Agora, a agência Reuters (9/2) dá conta de estudo publicado na prestigiosa revista científica ‘Cancer’, tratando da mesma temática por mim prefigurada em 2009.

É necessário que jornalistas científicos tenham noção dos dilemas éticos que enfrentam ao divulgar achados de tecnologias emergentes e ainda incipientes. E que não tenham cientistas-celebridade na conta de ‘amiguinhos’. Agradar (a quem quer que seja) não é função primária do Jornalismo (científico). 

Reproduzo abaixo a matéria distribuída pela agência Reuters Health.

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“No limite da vida”: o casamento feliz da esperança com a Ciência - Parte 3 - final

photo by LarimdaME 

Esperança é sempre esperança contra a evidência  - Alphonso Lingis

A frase acima, reproduzida do livro Hope (Esperança), de Mary Zournazi, deixa clara a total contradição entre a Ciência e a esperança. De fato, a Ciência, com sua obsessão por fatos e evidências científicas, deveria tratar a “esperança” como uma cidadã de segunda classe.

Mas, curiosamente, não é isso que acontece nas suas representações midiáticas. Se, antes do avanço da biomedicina, a Ciência era retratada na mídia como hard news, agora é quase obrigação associá-la ao infotainment

O último episódio da série “No limite da vida”, exibida pelo telejornal Bom dia Brasil,e  que foi ao ar hoje, trata de um fetiche cultural muito apreciado em nosso tempo: a esperança. 

O certo é que atualmente “regimes de esperança” se sobrepõem aos “regimes de verdade” no consumo público da (bio)medicina, ou mesmo da medicina stricto sensu, que, como já vimos, é a versão mais aproximada da Ciência com que um cidadão comum travará contato ao longo de sua vida. 

A combinação destes dois regimes na mídia gera uma retórica potente, que tanto serve para comover o espectador, como no caso da reportagem mostrada acima, como para alavancar pesquisas com células-tronco, a partir da dotação generosa de verbas federais: um cheque em branco caucionado pela comoção pública. 

O que podemos concluir deste inusitado casamento entre fatos (Ciência) e valores (Esperança) é que o arcabouço racionalista da modernidade estaria revelando suas rachaduras, em termos de persuasão popular. Agora a dureza dos fatos precisa ser hidratada pelo emoliente da esperança. A biotecnociência agora precisa contar com o auxílio luxuoso da autenticidade emocional para obtenção de aprovação pública. 

Nestes relatos cheios de esperança, é comum ver desfilarem performances do sofrimento, uma certa semiótica que transforma o sofrimento de outrem em linguagem com efeitos performativos, que realiza coisas, que faz algo acontecer. 

Não deixa de ser curioso constatar que os cientistas, tão ciosos da importância da objetividade em seus julgamentos, se associem aos jornalistas na construção de uma espécie de conspiração da esperança, que, em casos extremos, leva à geração de expectativas irreais, altamente danosas aos pacientes, muitas vezes alimentada fortemente pelas desigualdades na distribuição do conhecimento. 

(Fonte: g1.globo.com)