Bioeticistas antiéticos?

Postado por Pete Shanks em 10 de fevereiro de 2012

Inúmeras perguntas giram neste momento ao redor do American Journal of Bioethics (AJOB). O que está acontecendo exatamente ainda é difícil de saber, mas o Twitter está bombando.
Leigh Turner, bioeticista da Universidade de Minnesota, em particular, está cobrando publicamente a renúncia de todo o conselho editorial desta revista, e colhendo algumas adesões à sua demanda. Na medida em que o conselho desta revista é uma espécie de ‘Quem é quem na Bioética’ com 36 luminares (leia a lista), o caso promete dar o que falar.
O acontecimento que deflagrou toda a celeuma foi o fato de o fundador da AJOB, que se gaba de a revista Nature tê-lo classificado como “o pioneiro da bioética na internet” ter se afastado da revista mais uma vez. Ele lançou a referida publicação em 1999 quando estava na Universidade da Pensilvânia e levou-a consigo quando transferiu-se para o Instituto de Bioética Alden March, e mais uma vez quando três anos depois, sob uma nuvem de acusações (detalhadas na revista Scientific American), rumou para o Centro de Bioética Prática, situado em Kansas, Missouri.
Na ocasião, recaíam sobre ele acusações de comercialização da bioética, uma vez que seu outro negócio, que dividia um website com a AJOB, era uma atividade com fins lucrativos.
No entanto, sua mais recente movimentação é a mais problemática de todas: Ele saiu da academia para assumir uma posição na Celltex Therapeutics, em Houston.
A Celltex é uma empresa envolvida com células-tronco, “o único banco de células-tronco adultas do Texas”, e criada para se beneficiar da legislação branda do Texas sobre o uso de tratamentos ainda não aprovados pelo FDA.
A Celltex tem uma parceria com a RNLBio, a empresa coreana talvez mais conhecida pela clonagem de cães mas que também está envolvida em algo pior: a morte de dois pacientes.
(Leia ”Stem cell graft, Texas-style” para ter detalhes sobre a RNLBio como empresa que desenvolveu o procedimento empregado para injetar células-tronco autólogas no governador Rick Perry, recentemente. De quebra, veja a reportagem da MSNBC que mostra como Perry tenta propor uma lei para legalizar a Celltex como um banco de células-tronco, uma jogada descrita como um exemplo do “que os críticos vêem como sua boa vontade em usar as alavancas do governo para beneficiar amigos e compadres políticos”).
Enquanto isso, Bioethics.net, o braço lucrativo online da AJOB, abriga uma página (agora retirada, mas registrada em cache aqui) da “Associação Texana para Política e Ètica das Células-Tronco”.
McGee aparentemente constatou que pode não pegar bem para um editor de uma revista de bioética ter seu ganha-pão como supervisor de ética de uma empresa privada envolvida com células-tronco. Então ele transferiu sua posição como Editor-Chefe para sua esposa. É isto mesmo?
Bem, os co-editores-chefe são agora David Magnus, envolvido há anos com a AJOB, e Summer Johnson McGee, enquanto Glenn figura no expediente como “Editor-Chefe Fundador (1999–2012)”. O que não deixa de ser um tanto estranho, já que ele aparentemente começou a trabalhar na Celltex no início de dezembro, mas talvez eles só estejam arredondar os fatos; a página de informações foi atualizada hoje.
De acordo com o AJOB News, serviço noticioso semanal da revista enviado por email aos interessados, o endereço físico da publicação mudou de Kansas para Houston em dezembro (até o dia 9 de dezembro, o email mantinha o velho endereço físico). E Summer Johnson McGee muito rapidamente conseguiu uma posição em Loyola, supostamente em conexão com a transferência que ela e seu marido estavam realizando para o Texas, quando Glenn vestiu a camisa da iniciativa privada.
Como Leigh Turner destaca no Twitter, é uma “grande jogada” tentar “camuflar conflitos de interesse passando o boné de editora-chefe para a esposa”. Além disso, existem indícios de que o conselho editorial desconhecia completamente tais manobras, tendo sido surpreendido com a notícia. Será mesmo? Por que não sabiam?
Postado anteriormente no Biopolitical Times:
Stem Cells Update: Clinical Trials, Possible Funds, Long-Range Visions and Short-Term Scams

