Um olhar equilibrado sobre a ‘mutilação’ genital feminina entre as africanas


Por Lisa Wade, PhD, 11/12/2012
Embora eu seja mais conhecida por minhas pesquisas com a cultura da ‘pegação’ na universidade, eu tenho escrito muitos artigos sobre um tópico totalmente distinto: como os americanos falam sobre práticas de corte genital feminino (FGCs), mais conhecidas como 'mutilação’ genital feminina. Ainda que praticamente todos os americanos se oponham a FGCs, nossa compreensão desta prática é, de fato, enviesada por desinformação, etnocentrismo e uma história que retrata a África como ingenuamente 'atrasada’ ou cruelmente 'bárbara’.
A principal fonte de distorção tem sido a mídia. Buscando encorajar jornalistas a pensarem duas vezes quando cobrirem este assunto, o Hastings Center lançou um relatório publicado pela Rede Consultiva de Políticas Públicas sobre Cirurgias Genitais Femininas, da África. Ao longo deste post eu discutirei brevemente algumas das coisas que eles querem que os jornalistas _ e todos nós _ saibam bem como farei alguns comentários.
Usar a palavra “mutilação” é inadequado.
As pessoas que apóiam os cortes genitais acreditam que um corte corporal é algo esteticamente agradável. O termo “mutilação” pode impressionar certos ocidentais, mas a maioria das pessoas que moram nas comunidades onde esta prática é adotada acham o termo confuso ou ofensivo.
A cobertura midiática normalmente se concentra em uma das mais raras formas de corte genital: a infibulação.
A infibulação envolve aparar e fundir os grandes lábios de forma a fechar a vulva, deixando uma abertura para o intercurso sexual, a urina e as menstruações. De fato, 10% dos procedimentos envolvem infibulação. O restante envolve aparar, cortar ou escarificar o clitóris, o capuz clitorial, ou os grandes ou pequenos lábios. Embora nenhum destes procedimentos pareça atraente, alguns são mais extensivos que outros.
As pesquisas têm mostrado que as mulheres que se cortam têm interesse sexual.
As mulheres que têm sido submetidas a cirurgias genitais relatam “vidas sexuais ricas, incluindo desejo, excitação, orgasmo e satisfação sexual”. Isto vale tanto para mulheres que experimentaram reduções do clitóris e se submeteram à infibulação, como para as mulheres que foram submetidas a formas mais discretas de corte.
Complicações de saúde ligadas ao corte genital “representam a exceção e não a regra”.
Os relatos noticiosos sempre incluem longas listas de consequências médicas negativas agudas e de longo prazo dos FGCs, e estas podem parecer verdadeiras, mas esforços para documentar sua incidência sugerem que os problemas de saúde, na maioria dos casos, não são mais comuns nas mulheres que se submetem a tais procedimentos, em comparação com aqueles não cortadas. O relatório conclui: “de um ponto de vista da saúde pública, a vasta maioria de cirurgias genitais realizadas na África são seguras, mesmo em se tratando de procedimentos e condições atuais”.
As jovens geralmente não se submetem a tais procedimentos por influências patriarcais cruéis.
A maioria das sociedades que cortam as jovens também cortam os rapazes; alguns grupos que se engajam nesta prática têm regras sexuais relativamente permissivas para as mulheres, algumas não; e práticas de corte genital feminino são tipicamente controladas e organizadas por mulheres (da mesma forma, os homens controlam as cirurgias genitais masculinas)
As FGCs não são uma “prática africana” (fonte).

Os procedimentos que denominamos “mutilação genital feminina” ocorrem apenas em algumas parte da África mas também se observam fora do continente também.
Além disso, as cirurgias genitais cosméticas nos EUA estão em franca ascensão. Estas incluem redução clitorial, circuncisão do capuz clitorial, reduções dos pequenos e grandes lábios e redução da vagina, sem mencionar a lipoaspiração do monte de Vênus, injeção de colágeno no ponto-G, correção da coloração da vulga e branqueamento anal. Ainda que pareça simplista afirmar que tais procedimentos caracterizam o que tipicamente denominamos “mutilação”, eles não são muito diferentes disto.
Os esforços ocidentais para eliminar as FGCs são bastante ineficazes e muitas vezes apresentam o resultado oposto do desejado.
Acontece que as pessoas não apreciam ser chamadas de selvagens, ignorantes de seus próprios corpos, ou cruel para com seus filhos. Estrangeiros benevolentes que tentam deter estas práticas nas comunidades, assim como leis rigorosas elaboradas por políticos (sempre em resposta às pressões ocidentais), são raramente bem-sucedidas. As intervenções mais notáveis são aquelas que dão às comunidades recursos para por elas desejados.
Resumindo, é mais do que oportuno que os americanos adotem uma visão mais equilibrada das práticas de corte genital feminino. Ler o relatório do Hastings Center é um bom começo. Você também pode consultar o livro Genital cutting e transnational sisterhood, de Stanile James e Claire Robertson. A versão integral dos meus artigos sobre o tema, incluindo uma análise de discurso de 30 anos de diálogos acadêmicos, podem ser encontrados aqui.
Lisa Wade é professora de sociologia do Occidental College. Ela frequentemente dá palestras sobre cortes genitais femininos. Você pode segui-la no Twitter ou Facebook.
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