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O Globo confunde (deliberadamente?) ensaio clínico com tratamento

photo by maxymedia

Segundo a edição de O Globo de hoje, “Células-tronco completam dez anos com aplicação prática na Medicina”. 

Naturalmente ninguém pode ser contra o avanço científico, ainda que seja porque ele já está aí para ficar e não há como nele se passar uma borracha.

No entanto, a representação da Ciência na mídia apresenta ultimamente sérios problemas e mal-entendidos que podem ser tidos como insolúveis, dada a função midiática de informar e entreter, e porque não dizer, manipular esperanças para fins estratégicos.

Como a Ciência não tem entre suas funções entreter e manipular esperanças, temos aí um problema estrutural nas relações entre ciência e mídia, temos aí um dilema de difícil solução. 

Pode-se alegar que a matéria em questão volta e meia menciona o caráter experimental das terapias (misturando experimento e terapia mais uma vez), mas ao final da leitura, o leitor é levado a acreditar que os tratamentos são realidade (aliás, esta é a alegação ostentada no título da matéria).

Algumas rápidas observações me ocorrem sobre a matéria em questão.

0. A efeméride citada na manchete é imprecisa. Não se sabe do que trata os “dez anos” mencionados. Na verdade, os estudos com células-tronco começam a se desenvolver em 1998. Mencionar década é uma estratégia adotada por jornalistas para atribuir relevância ao relato oferecido. No caso em questão, os “dez anos” se referem ao tempo em que um dos retratados na reportagem sofreu a intervenção objeto da narrativa. 

1. Os jornalistas deliberada e sistematicamente confundem ensaios clínicos com tratamentos aprovados, testados e regulamentados, ou fazem questão de deixar nebulosa a fronteira entre uns e outros nestas reportagens.

Entre os ensaios clínicos e os tratamentos aprovados para uso na população em geral há uma distância colossal.

Ensaios clínicos são feitos com voluntários, muitas vezes pacientes desenganados, sem qualquer outra alternativa terapêutica, que assumem o risco de por eles passarem, como cobaias humanas, mais (ou menos) informadas sobre os perigos potenciais que poderão enfrentar a curto e longo prazos (estes, aliás, desconhecidos dos próprios cientistas, razão pela qual realizam testes clínicos). 

2. A comunidade científica consente nesta confusão semiótica (ensaio clínico X terapia) acima mencionada porque para ela lhe parece interessante.

Mídia é tudo! É verba pra pesquisa, é equipamento no laboratório, é reforma das instalações. É prestígio social. É fama. É prêmios. Não devemos esperar que na segunda-feira os cientistas retratados na matéria citada procurem a seção de Cartas do jornal para corrigir as imprecisões da reportagem. Além de criar uma saia justa com o repórter que a escreveu , seria como dar um tiro no pé aos olhos dos ministérios que bancam as pesquisas. 

3. Estudos sociológicos sobre a gestão de incertezas científicas por repórteres revelam que eles tendem a retratar a Ciência como uma atividade mais certa e precisa do que ela realmente é. Entre o artigo publicado na revista científica peer reviewed de renome pelos pesquisadores envolvidos e a sua representação no jornal popular que chega ao leigo informado, todas as ressalvas feitas pelos pesquisadores sobre os cuidados que se deve ter ao extrapolar os dados do experimento para situações gerais terão sido suprimidos. 

4. Contexto e equilíbrio sempre faltam nestas matérias. Vemos nelas a história de personagens, que, como o nome já diz, são personagens (únicos e/ou raros, senão não seriam personagens). A matéria mostra um paciente muito feliz com o ensaio clínico. Quantos foram testados? Quantos morreram? Morreram de quê? Das complicações naturais de sua doença? Ou do tratamento em si? Quantos não se beneficiaram de forma alguma do mesmo? Sem estes dados, fica difícil aquilatar a dimensão meritória dos ensaios citados. 

5. É lícito que pessoas sem nada mais a perder, desenganadas, à beira da morte, lutem com todo seu empenho para viver. Mas estarão elas sendo realmente informadas de que estão passando por um ensaio clínico, quais os riscos, qual a eventual chance de sucesso, de forma a fornecer um consentimento VERDADEIRAMENTE informado, ou chegam a estes espaços empolgadas e confiantes com a última matéria do Fantástico? 

6. A quem acredita que estamos aqui argumentando com argumentos panfletários, recomendo a leitura do livro Communicating Uncertainty: media coverage of new and controversial science. Tudo que afirmo aqui está lá escrito. O livro é produto de um seminário que envolveu cientistas (pesquisadores clínicos etc.) respeitados e especialistas nas representações midiáticas da Ciência. 

7. Resumindo. Não existem “aplicações práticas” da terapia com células-tronco como afirma a reportagem. Qualquer pessoa que as procure terá que se submeter a testes clínicos com resultados imprevisíveis. Confundir deliberadamente o público sobre o que seja ENSAIO CLÍNICO  e o que seja TRATAMENTO (ou nublar a fronteira entre ambas) é uma IRRESPONSABILIDADE. A cura milagrosa ainda pode demorar décadas. 

Leia também:

Testes clínicos: quando a esperança pode matar

The deadly corruption of clinical trials

(Fonte: oglobo.globo.com)