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Anúncio de serviço público da Pensilvânia culpa vítimas pelo estupro

Por Caroline Heldman

Os números referentes a denúncias de estupro, acusação e condenação nos EUA são incrivelmente baixos, mas é mais fácil escapar de uma acusação de agressão sexual em alguns estados do que em outros. A Pensilvânia é um destes lugares. Lá, o testemunho de peritos não é permitido no tribunal. Assim, os jurados frequentemente se baseiam em mitos abundantes e danosos acerca do estupro para fundamentarem seus vereditos. 

Sendo assim, não deveríamos nos surpreender quando o Pennsylvania Liquor Control Board (PLCB) veiculou um anúncio que promovia abertamente a idéia de que as mulheres são culpadas por serem estupradas. 

O anúncio mostra uma mulher jovem caída no que parece ser o assoalho de um banheiro, com a calcinha abaixada e com os seguintes dizeres: “Ela não queria fazer isso, mas não podia dizer não”. A condenação da vítima aqui não poderia ser mais evidente, a despeito da linguagem ilógica que tanto  sugere que a vítima possuía agência (ela é culpada) e não a tinha (porque não podia dizer ‘não’).

Criado pelo Neiman Group, este anúncio foi parte de uma campanha para elevar a consciência dos efeitos danosos do consumo de álcool. Muitos outros temas foram propostos na campanha, mas este sem dúvida foi o ‘campeão’. Outra peça da mesma campanha sustenta que o amigo da vítima teria sido responsável pelo seu estupro. 

O PLCB suspendeu a campanha em resposta a centenas de mensagens de cidadãos preocupados, alguns dos quais alegavam terem ficado traumatizados pela imagem/mensagem. No entanto, um comunicado do PLCB revela que os responsáveis pela campanha ainda não compreenderam a extensão do problema:  

"Nós tínhamos a convicção (e ainda temos), quando iniciamos a discussão sobre realizar uma campanha como esta, de que era importante trazer à luz do dia as idéias mais desconfortáveis sobre o consumo excessivo de álcool, bem como sobre aqueles perigos a ele relacionados _ o estupro por um conhecido (date rape) sendo apenas um deles".  

O PLCB tem razão ao associar álcool e ‘date’ rape (uma expressão que banaliza o estupro), mas não porque as mulheres sejam responsáveis pelas ações criminosas dos cerca de 6% de homens que praticam este crime. Na verdade, os agressores exploram narrativas culturais _ como a idéia de que intoxicação pela bebida é equivalente à má comunicação e que estupro por um conhecido não é estupro de verdade _ para recorrentemente cometer este crime. Em um recente estudo com universitários, verificou-se que 4% dos homens eram estupradores contumazes; cada um deles cometendo uma média de 5,8 agressões sexuais. 

Resumindo, a agressão sexual é cometida por agressores (frequentemente contumazes). No entanto, campanhas publicitárias como estas continuarão a nos assegurar que a agressão sexual continuará a ser o único crime em que a sociedade trata a vítima como culpada pela agressão sofrida.

Nota da Redação: Este post aqui está sendo reproduzido pela oportunidade ensejada pelo suposto caso de estupro de vulnerável ocorrido no Big Brother Brasil 12. O caso BBB 12 nos alerta para uma prática criminosa, mas socialmente tolerada, que é a do date rape (estupro por conhecido) facilitado pelo uso de drogas ou álcool. Tipificar o date rape como crime costuma ser complicado devido a diferenças conceituais sobre o que constitui estupro.  

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Sociological Images mantém uma parceria com o blog Conhecimento Prudente. Imagens Sociológicas: Ver para crer foi concebido para encorajar todas as pessoas a exercitarem e desenvolverem sua imaginação sociológica através da apresentação de breves discussões sociológicas sobre imagens sedutoras e atuais a partir de reflexões geradas no vasto campo da pesquisa sociológica. É também poderoso instrumento de interpretação de mensagens da mídia.

(Fonte: thesocietypages.org)